Capuccino com Mingau

Suas Cartas

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Respirei fundo antes de abrir o envelope. Queria ler, precisava ler, mas eu sabia que isso me faria tanto bem quanto mal. Toda vez que eu lia, eu me sentia bem, como se você ainda estivesse aqui comigo, para conversar, rir, e falar bobagens. Mas quando eu terminava de ler as cartas que foram programadas por você, a chegar semanalmente por correio, eu chorava desesperada, como se eu nunca mais fosse parar. Eu precisava de você. Precisava da sua voz firme e grossa, me falando coisas sem sentido. Precisava ds suas ligações de madrugada. Precisava ouvir sua risada. Precisava de você.

                Agarrei a carta contra o meu peito, enquanto o tic tac irritante do relógio soava pelo meu quarto, deixando o momento ainda mais preocupante. Tic tac, tic tac… sim, era desesperador. Eu precisava ler, ler as cartas era como ouvir sua voz novamente. Mas, se minha mãe me pegasse no mesmo estado em que fico, depois que termino de reler centenas vezes suas palavras tão doces em uma caligrafia torta, imaginando sua voz lendo-a para mim, me pergunto em que estado ela ficaria. Provavelmente mandaria me internar, e eu não posso correr esse risco. Mas eu iria correr, pensei suspirando. Eu era o ser mais teimoso que conhecia depois de meu avô, então é obvio que leria aquela carta, tanto faz se me fizesse bem ou mal, ainda tinha sido você quem as havia escrito.

                Abri a carta numa ansiedade funebre, encontrando suas mais lindas palavras de amor e sinceridade, e até alguns pensamentos bobos, em uma simples folha de papel. Comentava em voz alta algumas coisas, me irritava em voz alta com outras, como se você estivesse ao meu lado e pudesse me ouvir, e me conhecendo do jeito que conhecia, comentava sobre minhas prováveis reações como se fosse um profeta, e as comentava, o que me fazia rir abobadamente. Ninguém me conhecia tão bem quanto você.

                E então, a carta acabou. E eu a reli centenas de vezes, e quando finalmente consegui deixar a carta de lado, me entreguei á iminente dor que resultava depois de ler suas cartas. Meus bichos de pelúcia me encaravam, como telespectadores de minha dor e angustia, inclusive alguns que você tinha me dado, os quais eu chorava agarrada, implorando á Deus que eu ainda pudesse ter você. Sim, eu sentia sua falta.

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